quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Kafka no Palito

"É um bom trocadilho para nome de restaurante", pensou o proprietário. E assim o registrou: Kafka no Palito. Cada dia da semana, um evento diferente. Terça, dança do ventre; quarta, futebol e assim em diante. Resolveu criar também um dia de discussões de filosofia e literatura, para assim justificar o nome do lugar. Quinta-feira.
Nos três primeiros dias da semana o movimento foi ótimo. Curiosos, casais e famílias foram provar a tal "comida árabe com algo mais". Mas poucas pessoas foram ao Kafka no Palito no dia da filosofia. E nem discutiram nada, apenas comeram e foram embora.

O dono achou estranho e resolveu acompanhar o movimento do mês. As cenas se repetiram. Conclusão: ninguém sabia quem era Kafka. Aborrecido, o homem decidiu passar desenho animado na quinta e aquilo virou o paraíso da criançada. Ah, ele também trocou o nome do restaurante, que agora é Kafta no Palito. Mas ninguém reparou.
FIM
Deborah O'Lins de Barros
Itajaí, 24/02/2010

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

textinho de segunda

crime passional

Ninguém ia perceber que tinha sido intencional. Fui lá e fiz. Durmo com a consciência pesada, mas pelo menos agora, durmo.


Deborah O'Lins de Barros
10/02/2010

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

textinho de segunda

o tédio do vampiro broxa

- Quero o sangue pelo sangue, sem a sensualidade do Conde Drácula.



Deborah O'Lins de Barros, Itajaí, 13/02/2010

segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010

textinho de segunda

Era uma vez

...e o mal venceu. O braço direito do vilão perguntou:
- Oh, líder, como viveremos agora?
Foram felizes para sempre.

Deborah O'Lins de Barros
07/02/2010

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

na crônica, eu acho

Tive uma professora de português que dizia que numa redação não poderíamos dizer o que “achávamos” sobre determinadas coisas. O correto seria dizer o que “pensávamos”. Hoje eu concordo com ela, mas na redação. No colégio, quando dissertamos sobre algo, devemos expôr nossos pensamentos e não nosso “achismos”.

Na época que a professora Eliane me corrigia nós não sabíamos que eu ia ser uma escritora (acho que já posso dizer que sou, né?). Sempre me senti bloqueada com isso. A minha crônica tem uma estrutura bem próxima da redação escolar, uma média de 3 a 4 parágrafos. E redação para mim está a um passo da crônica.

Comecei a me expressar literariamente com a poesia. Mas foi na crônica onde eu comecei a me encontrar. Talvez por ser um diálogo do eu com o eu-lírico. Uma linha de raciocínio que se desenvolve no papel e de repente vira crônica. Todo mundo deveria ser cronista. Economizaria uma grana de análise.

Obrigada, professora Eliane, por prezar pelo bom português, ter me apresentado Álvares de Azevedo (olha gente, a culpa é dela, viu!!), João Ubaldo Ribeiro (“A casa dos budas ditosos” como livro extra-classe foi inesquecível!!!) e, conseqüentemente, outros escritores que eu não leria se não fosse essas leituras. Mas uma coisa você tem que dar o braço a torcer: na crônica eu posso “achar”. Na crônica eu acho e me acho... E, ah! Eu continuo escrevendo com letra separada...

sábado, 10 de outubro de 2009

niemeyer

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Escuto e danço enquanto
admiro o ritmo desses traços,
que ondulam e contornam nossa
terra natal. Sua obra flamula ao vento,
firme, tremendamente graciosa, im-
ponente. Um lápis em sua mão,
é mais revolucionário que a
revolução russa; mais
modernista que Macuna-
íma, que a poesia de Décio
Pignatari, somada à de Oswald
Andrade. Um lápis em sua mão, é a
profecia de uma ruptura; sua arquitetura
sempre nova tirou o latim de nossas
igrejas, fez tudo lembrar as praias
cariocas, onde quer que sua
arte esteja. Além de
você, só Deus, para es-
crever certo por linhas tortas.
mas não o chamarei de senhor,
pois como seus traços, você é eter-
namente jovem. Sua arte tem sotaque
do Rio de Janeiro! E se, vita brevis,
Sua arquitetura é ars longa
E a mim, só resta dizer:
Niemeyer, como eu,
também é bra-
sileiro!


Deborah O'Lins de Barros
poema composto em 2007, em homenagem aos 100 anos do grande arquiteto, Oscar Niemeyer

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

minha fantasia sexual é assexuada


Minha fantasia sexual é assexuada

Sou uma prostituta culta, que vive nas ruas de Boston em 1847. Bebo num bar de quinta categoria quando percebo ao meu lado, Edgar Allan Poe, completamente bêbado, recitando, entre soluços, “O Corvo” e chorando sua Virginia que acaba de falecer. Me aproximo e puxo assunto, depois de recitar com ele o poema que li num jornal de 1845. Poe se agrada de minha companhia e conversamos a noite inteira.

Eu o ajudo a chegar a sua casa e memorizo o caminho. Passo a freqüentá-lo, com a desculpa de querer aprender sobre literatura, mas sendo sempre seus ouvidos atentos e seu ombro amigo. A estranha amizade dura, a despeito da vizinhança hipócrita. Se eu transo com Edgar Allan Poe? Sei lá, nunca pensei nessa parte. O mais importante é que, sim, eu o salvaria de morrer na sarjeta, em 1849.

Deborah O’Lins de Barros
Itajaí, 31/08/2009

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

11 de setembro

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ninguém notou que havia
algo de podre no reino da mais-valia.
como seria possível?
(pra mim isso tem o dedo da CIA)
mas havia algo de podre
no reino da mais-valia.
ops! ninguém notou... e o avião caiu!
disseram para o presidente branco:
"ca-bum"
burro, ele entendeu:
"cabul"
e assim começou a guerra.
ai, que azia...
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quinta-feira, 10 de setembro de 2009

receitas apetitosas do jornal Paperback Writer News

Sanduíche aberto de artes plásticas
Ingredientes
Bisnaga tipo Picasso
Manteiga tipo renascentista
Molho romântico (marca “Morte de Marat”)
Rodelas cubistas
Lascas de impressionismo
Surrealismo a gosto

Modo de montar o sanduíche
Corte no sentido horizontal uma bisnaga tipo Picasso e passe uma leve camada de manteiga renascentista dos dois lados. Corte rodelas cubistas bem finas e espalhe por todo o pão. Em seguida espalhe o molho romântico, deixando uma camada de aproximadamente 0,5cm. Delicadamente, coloque por cima as lascas de impressionismo, de preferência raladas. Para dar um charme, polvilhe um pouco de surrealismo e sirva.

Dica
O sanduíche pode tanto ser fechado e cortado em fatias diagonais quanto ser consumido aberto, cortado como uma pizza à francesa ou um canapé.

Receita cedida por Madame Marie Stampf-Heinderberg da Bélgica, colaboradora do jornal Paperback Writer News.

quarta-feira, 5 de agosto de 2009

aspones da literatura?

Recebi um email bastante interessante de meu amigo Enzo. O tema é a produção literária atual. Foi irresistível, tive de responder e achei bacana postar aqui também. Então, lá vai. Os comentários estão abertos à discussão.
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carimbo
Há algum tempo tenho percebido um discurso implícito na internet. Começou no blog do Rodrigo García Lopes (1), e agora recebo essa revista on line chamada Sibila (2) que parece um almanaque de reclamações sobre literatura. Resumindo: está todo mundo muito insatisfeito com a poesia que está sendo feita atualmente no Brasil. “Poesia de bosta”, “poesia para boi dormir”, “poesia de passagem”, as expressões são inúmeras. Esse discurso também demoniza o “hoje qualquer um pode ter um blog e dizer que é poeta”; enfim, sentiram a fonte né? Falta carimbo para eles.
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Eu estou sossegado porque muito do que conheço de gente viva escrevendo me agrada. E poetas de blog sim, desses que não se acham facilmente nas livrarias. Aliás, se forem olhar para as livrarias... E graças a Deus a maioria dessas pessoas não são como Hilda Hilst que ficava gritando para os cachorros: “eu sou maravilhosa! eu quero ser reconhecida! ninguém nunca fez na literatura algo como o que EU fiz!”.
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Isso me parece tão estúpido quanto um avesso, como aquelas pessoas que dizem ser o Hino Nacional Brasileiro o mais belo do mundo sem conhecer os outros. Ta aí a palavra mágica: conhecer. E não reconhecer. Olha, hoje eu não estou com paciência, mas um dia eu vou fazer uma lista de mil nomes da literatura que não foram reconhecidos em vida, e que com certeza deixaram a cena literária uma “bosta”, “para boi dormir”, “de passagem”.
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Tenho dito.
Att
Enzo Potel
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* (1) “Um abraço para você, Leminski, esteja aonde estiver. Você faz uma falta danada nestes tempos de caretice e poesia chata para caralho.” Domingo, Junho 07, 2009 http://www.estudiorealidade.blogspot.com/
(2) http://www.sibila.com.br/index.php/home

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carimbador maluco
É aquela coisa né, Enzo... as pessoas gostam de frases impactantes, neologismos em rimas escalafobéticas e um nome de respeito assinando tudo.
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Na Idade Moderna houve um cara que resoveu dar nome aos bois: e daí surgiu o período que hoje entendemos por Pré-História, Idade Antiga, Idade Média... Será que a geração 45 sabia que ia receber esse nome? e o pessoal que viveu em 1968, sabia de antemão que esse foi o "ano que não terminou"?
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Não coloquemos a carroça na frente dos bois! A nossa geração é nova ainda, nossa literatura ainda está fresca, não consolidada. Então é estupidamente errôneo que fiquemos reclamando, chamando tudo de idiota. Sim, eu concordo que muitas das coisas são feitas para serem vendidas, mas meu blog e o de muitos outros escritores não possui textos marketeiros.
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O nosso problema é que queremos criar algo totalmente novo. Não dá para resolver assim, sem mais nem menos. O novo aparece, simplesmente. E aí, como o "novo" ainda não apareceu (ou não foi "reconhecido"), ficamos saudosos de gerações que não pertencemos. É claro que eu adoraria ter vivido entre Oswald e Mário de Andrade. É claro que eu gostaria de ter sido a Pagu. Mas não vivi, não sou. Sou a Deborah. e minha poesia é digna e invendável (no sentido best seller da coisa).
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Não queiram ser quem não são! Não queiram ressussitar os poetas-mortos!! Paciência! Sabedoria! E o mais importante de tudo: LEIAM E ESTIMULEM O PRÓXIMO A LER TAMBÉM!!!! Senão seremos lembrados como a GERAÇÃO QUE NÃO FEZ PORRA NENHUMA A NÃO SER RECLAMAR DE BARRIGA CHEIA.
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Tenho dito.
Carpe diem,
Deborah O'Lins de Barros