segunda-feira, 26 de setembro de 2011

fragmento

(para um futuro ensaio)

Há pessoas que precisamos apenas ver uma vez na vida para nunca mais esquecê-las. Estas são as pessoas eternas. E há pessoas que, para manterem-se irresistíveis, necessitam fazerem-se lembradas de quando em quando. Estas são as pessoas perecíveis.

O quadro que mais gostamos sempre estará lá, exercendo seu papel de estampar a beleza calada, parada e intacta que nos agrada.

Toda musa tátil é musa perecível.

Deborah O'Lins de Barros
Rio de Janeiro, 26/09/2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

o que Charles Bukowski diria de mim

(já que ele não me fará um poema, eu mesma o faço)

Ela às vezes parece ter 13 anos,
com seus sapatos de plástico
e seus olhos curiosos.
Mas de perto e na prática
todos sabemos que não é
bem assim.

Ela tem amores impossíveis
que duram para sempre
e amores tangíveis
que não duram nunca.

Ela bebe menos do que gostaria,
por medo de soar decadente.
Mas beberia comigo
e com certeza quebraria sua dieta.

Ela nunca daria seu rabo para mim.
Mas duvido
que ela nunca tenha se tocado,
durante um banho,
pensando em algum poema que escrevi.
Na verdade, ela é quem me comeria.
Com sua mente suja
muito bem disfarçada
na sua pose de romântica tardia.

terça-feira, 26 de julho de 2011

postal [2]

Blim blom. E a jovenzinha corre para atender a porta. Carteiro. Que emocionante, em pleno século XXI e ela recebeu uma correspondência. Entre um sorriso e um "bom- dia" ela assina o papel do recebimento. "Tchau, bom trabalho", e a mocinha se vê com um malote na mão.

Que engraçado, parecia que a encomenda estava voltando ao remetente, embora ela não tivesse postado nada nos últimos tempos. Muito menos algo para aquela cidade de que nunca ouvira falar. Entrou em casa e resolveu abrir.

Cartões postais! Não havia nada mais charmoso que essa singela invenção dos Correios. Ah! Acabara de lembrar que sim, conhecia aquela cidadezinha de algum lugar... Teve um tio-avô muito querido, que contava, quando ela era pequena, histórias de um tempo em preto-e-branco... Reconhecia a letra e algumas histórias do já falecido parente. Mas como esses postais foram parar com o tal destinatário? E como esse destinatário mandou tudo isso para ela? Será que morreu e seus parentes resolveram devolver essas lembranças postais aos parentes do remetente?

Ih, tava meio estranha essa história de cartão postal. Não fazia sentido. Como não gostava muito dessas coisas com cara de sobrenatural, tratou logo de postar novamente o malote ao antigo destinatário. E ele que desse o fim que quisesse.

(continua...)

sexta-feira, 24 de junho de 2011

postal [1]

Era um senhor fascinado por postais. Coleções de todos os cantos do mundo enchiam suas estantes. Países que não existiam mais, postais da época de guerras. E sempre recebia mais, de amigos que lhe enviavam. Participava de uma grande rede de troca de cartões.

Um dia o carteiro trouxe um malote desconhecido. Estranho, pensou o velho. Daquele remetente ele ainda não tinha nenhum cartão-postal. Abriu curioso, não é possível. Os postais eram de sua cidade. Guardou a esquisitice e não comentou com ninguém.

Mensalmente mais postais dali, com o endereço de lá, chegavam. E pior. Muitos narravam a vida da pequena cidade, com detalhes que o velho nunca se interessou. Lugares onde ele nunca quis ir. Não agüentou. Foi dar uma volta e constatou que todas as informações estavam corretas, mas ninguém pode lhe dar informação de algum excêntrico e misterioso colecionador. Ninguém conhecia alguém que tivesse aquela letra.

O velho chegou em casa e olhou os seus estranhos postais. Juntou tudo numa caixa e enviou para o remetente. E os estranhos malotes começaram a chegar novamente.

fim (será?)

escrito em 2010

domingo, 19 de junho de 2011

poesia nossa de cada dia

Poeta-morto que está no céu,
ou mesmo que ainda no Inferno de Dante,
abençoa as exposições de arte,
as peças de teatro,
e toda obra escrita:
que ela seja lida e não apenas
um enfeite na estante.

Perdoai nossos erros gramaticais,
assim como perdoamos as bizarrices que já lemos antes.
Abençoa-nos com situações inusitadas,
que nos inspirem a usar palavras bonitas
em melopéias contagiantes.

Nos poupe das rimas pobres,
que possamos colorir muitos versos brancos.
Nos dê força para aguentar os que dizem
que qualquer coisa é poesia,
pois tu nos ensinaste que só é poesia
quando há intenção de matar.

E nós, aqui, aproveitaremos o dia,
ouvindo sempre um suave murmúrio
- que não vem do mar -
e nos diz carpe... Carpe Diem!

(escrito em 2008)

quinta-feira, 2 de junho de 2011

o beijo,

quando muito desejado,
vira afresco renascentista
escultura de Rodin
fotografia de Bresson.
vira quadro,
vira uma coisa surrealista
noturna de Chopin
poesia de Allan Poe.

te echo tanto de menos
e te desejo tanto demais
que agora me gustaria
beijar-te
e nada mais.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

foi poeta, sonhou e amou a vida

Digam e creiam o que quiserem: — todo o vaporoso da visão abstrata não interessa tanto como a realidade formosa da bela mulher a quem amamos.


Manoel Antonio Álvares de Azevedo
12/09/1831 - 25/04/1852

159 anos nos separam, mas você sempre será meu poeta preferido.

5 sem tidos

(provável fragmento)

ouço cores de Almodóvar
toco fragrancias de Lolita
degusto texturas de Beethoven
vejo sabores de Van Gogh
respiro vozes de Chaplin

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Ivo viu a uva.
A moça feia viu a banda.
Os inteligentes viram a roupa.
Colombo e Gagarin viram a terra.
Dali viu a Mae West.

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Deborah O'Lins de Barros,
Rio de Janeiro, (já passsou da meia-noite, então...) 25/04/2011
(colaborou com idéias: Rachel Lins, minha mana)

sexta-feira, 1 de abril de 2011

primeiro de abril

Não queria mais uma sexta. Não queria uma saideira. Não queria mais do óbvio, ópio do povo. Então resolveu viver uma mentira de um dia. Dessa vez acordou na hora. Quer dizer, levantou da cama na hora. E se arrumou mais. Fez uma cara de Clark Gable no espelho, para ver se convenceria alguém, se quisesse. Gostou do resultado. Depois começou a mudar a rotina. Tomou café em casa e percebeu que até o dia anterior tomava um café horrível. Resolveu ir ao trabalho de ônibus, em vez de ir de carro, como costumava. E notou que levava o mesmo tempo para chegar. O trânsito não distingue os meios de locomoção. No escritório, pensou em fazer as coisas com algum carinho, já que trabalhava com o que gostava. E seu dia rendeu muito mais que quando trabalhava roboticamente. Na volta para casa, trocou a cerveja por uma ida a vídeo-locadora. E encontrou um filme que estava há muito tempo querendo ver.  Antes de ir para a cama, pensou na garota para quem ele volta e meia ligava como quem não quer nada. Viu que valia mais a pena dormir sozinho. E antes de dormir pensou que, na verdade, todos os outros dias é que tinham sido primeiro de abril.

Deborah O`Lins de Barros
Rio de Janeiro, 01/04/2011

quarta-feira, 23 de março de 2011

reflexões cariocas

peguei um ônibus às 18:20h
mato a saudade do trânsito do Rio,
enquanto o trânsito do Rio me mata de tédio.

não é esnobismo
por que ninguém escuta Tchaikovsky no viva-voz do celular?

coma peixe
as melhores idéias sempre acontecem quando não temos caneta.

nuances
a mulher magricela cruza o Largo da Carioca de minissaia. antes de chegar do outro lado ela já tem quase certeza de que seu corpo é de passista.