quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

poema crocante

torrei as torradas.
redundância, aliteração
e amnésia.


Rio, 24/12/2011

sábado, 10 de dezembro de 2011

jazigo 12A

Não sou uma princesa,
elas não valem meio poema.
Porém, nem meio poema dedicaram a mim.

Fundei, sozinha,
a minha própria sociedade epicuréia.
Sou uma poetisa, viva,
à espera de poetas mortos.

Não tenho sido exigente,
quero apenas alguém que me ame docemente.
Não quero que me salvem,
ou que me levem para um palácio... até porque...

todos os meus heróis foram vencidos pelo tempo.
E todos os meus poetas
são esguios e desarmados.

dedicado ao meu poeta-morto favorito
(Rio de Janeiro, 22/02/2005)

domingo, 4 de dezembro de 2011

5 sem tidos (mais fragmentos)

otorrinolaringologia

(ouça)
o cheiro                                                                                    
úmido da madrugada
               dos temperos que estão na sua comida
               da saliva que desce pela garganta
(respire)
os sabores
                                                    que escorrem pelos ouvidos
                   da onda que o mar traz para a praia
                   do contato metafísico
(deguste)
o som  
                                                            do virar mais uma página
            do aroma fixado na memória
           da tinta que ainda é só isso e mais nada

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

vende-se casa com tudo dentro


Bairro privilegiado. Preço abaixo do mercado. Mobília e decoração incluída. Casa ampla e confortável, cômodos secos com chão forrado de tábua corrida; cozinha e banheiro cobertos de azulejos grandes e pequenos, respectivamente. Quadros estampados com réplicas de obras de arte. Jardim verde e salpicado de pontos floridos; velha árvore com balanço e escada de corda, que dá para uma casa na árvore, com construção que foi deixada pela metade.

Na residência morou uma família quase completa e quase feliz, composta de filhos, pais e pais dos pais. A casa guarda em si momentos vários, lágrimas de alegria e de tristeza, sustos, gargalhadas, notícias diversas, lembranças de brinquedos e brincadeiras; espectros de ouvidos atentos ao rádio, olhares atentos à televisão, mãos atentas ao ponto-cruz. 

Jaz na casa, ainda, a distante memória, que se tornou em esperança e lenda de um desconhecido tesouro, que talvez só seja descoberto em caso de demolição total. Vende-se casa com tudo dentro. Motivo: diversos.

quarta-feira, 19 de outubro de 2011

a musa

Não a queria como presa,
para que o tempo e a convivência
estragassem toda a beleza.
Apenas a queria.
Livre, por que assim era mais bonita.
À moça não importava o nome:
era simplesmente “musa”.
Era linda em seus modos,
em seus vestidos, em seus sorrisos.
E
infinitamente mais linda
quando ele, depois de muito tempo sem (h)a ver,
(h)a via.

Deborah Lins de Barros
(Rio de Janeiro, madrugada de 17-18/08/2011)

sábado, 8 de outubro de 2011

no saguão do CCBB

Crianças brincam de correr
no saguão do CCBB,
uma mocinha ao lado lê
“Diário de uma paixão”
(ou coisa parecida).
um cara ouve o jogo
a chuva nos chove
o trânsito nos paralisa
um telefone toca.
alguém trepa,
alguém topa,
alguém nasce,
alguém morre.
veja quanta coisa acontece
enquanto eu leio
Charles Bukowski!

(Rio, 10/08/2011)

segunda-feira, 26 de setembro de 2011

fragmento

(para um futuro ensaio)

Há pessoas que precisamos apenas ver uma vez na vida para nunca mais esquecê-las. Estas são as pessoas eternas. E há pessoas que, para manterem-se irresistíveis, necessitam fazerem-se lembradas de quando em quando. Estas são as pessoas perecíveis.

O quadro que mais gostamos sempre estará lá, exercendo seu papel de estampar a beleza calada, parada e intacta que nos agrada.

Toda musa tátil é musa perecível.

Deborah O'Lins de Barros
Rio de Janeiro, 26/09/2011

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

o que Charles Bukowski diria de mim

(já que ele não me fará um poema, eu mesma o faço)

Ela às vezes parece ter 13 anos,
com seus sapatos de plástico
e seus olhos curiosos.
Mas de perto e na prática
todos sabemos que não é
bem assim.

Ela tem amores impossíveis
que duram para sempre
e amores tangíveis
que não duram nunca.

Ela bebe menos do que gostaria,
por medo de soar decadente.
Mas beberia comigo
e com certeza quebraria sua dieta.

Ela nunca daria seu rabo para mim.
Mas duvido
que ela nunca tenha se tocado,
durante um banho,
pensando em algum poema que escrevi.
Na verdade, ela é quem me comeria.
Com sua mente suja
muito bem disfarçada
na sua pose de romântica tardia.

terça-feira, 26 de julho de 2011

postal [2]

Blim blom. E a jovenzinha corre para atender a porta. Carteiro. Que emocionante, em pleno século XXI e ela recebeu uma correspondência. Entre um sorriso e um "bom- dia" ela assina o papel do recebimento. "Tchau, bom trabalho", e a mocinha se vê com um malote na mão.

Que engraçado, parecia que a encomenda estava voltando ao remetente, embora ela não tivesse postado nada nos últimos tempos. Muito menos algo para aquela cidade de que nunca ouvira falar. Entrou em casa e resolveu abrir.

Cartões postais! Não havia nada mais charmoso que essa singela invenção dos Correios. Ah! Acabara de lembrar que sim, conhecia aquela cidadezinha de algum lugar... Teve um tio-avô muito querido, que contava, quando ela era pequena, histórias de um tempo em preto-e-branco... Reconhecia a letra e algumas histórias do já falecido parente. Mas como esses postais foram parar com o tal destinatário? E como esse destinatário mandou tudo isso para ela? Será que morreu e seus parentes resolveram devolver essas lembranças postais aos parentes do remetente?

Ih, tava meio estranha essa história de cartão postal. Não fazia sentido. Como não gostava muito dessas coisas com cara de sobrenatural, tratou logo de postar novamente o malote ao antigo destinatário. E ele que desse o fim que quisesse.

(continua...)