se um dia me procurarem
e eu não estiver nas velhas ruas
do Centro da cidade
nem no bairro
das minhas saudades
nem nas praias
nem nas gramas
nem no Museu de Belas-Artes,
não pensem que morri.
se um dia por aqui
já não me acharem mais,
me procurem,
ou imaginem.
estarei
em Minas Gerais.
Deborah O'Lins de Barros
Rio, 18/01/2014
domingo, 26 de janeiro de 2014
há mar
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poesia
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terça-feira, 2 de julho de 2013
fome
você diz que a poesia
é para ser vivida.
mas que brega.
eu digito,
tu digeres,
ele rumina.
você diz que poesia
não enche barriga,
como se não houvesse
lirismo na pança boêmia
do chope
na esquina.
você diz que escreve poesia.
poesia apenas, não.
poesias apenas são.
a poesia do homem são
é para ser
comida.
Deborah O'Lins de Barros
Rio, 18/06/2013
é para ser vivida.
mas que brega.
eu digito,
tu digeres,
ele rumina.
você diz que poesia
não enche barriga,
como se não houvesse
lirismo na pança boêmia
do chope
na esquina.
você diz que escreve poesia.
poesia apenas, não.
poesias apenas são.
a poesia do homem são
é para ser
comida.
Deborah O'Lins de Barros
Rio, 18/06/2013
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terça-feira, 14 de maio de 2013
nervos
Almodóvar,
gato da dona Amélia. Dona Amélia era meio doida, diziam os moradores do nono
andar. A diversão de seus netos era visitar a avó e ver Almodóvar abrir sozinho
a janela de correr.
Dona Amélia
gritava quando ficava nervosa. E, segundo os vizinhos, ficava nervosa sozinha,
em casa.
Um dia,
durante um solilóquio histérico na cozinha, Almodóvar saiu de seu esconderijo
atrás do fogão, caminhou até a sala, abriu a janela e pulou.
Deborah
O’Lins de Barros
Rio,
13/05/2013
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conto
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segunda-feira, 22 de abril de 2013
Vontade de canção
O samba que estou escrevendo
não faz sentido pra quem está lendo.
Eu vou só cantar a nostalgia,
que por pura simpatia,
deixa meu peito ardendo.
Eu vou embora, vou fugir
para Pasárgada, vou pra lá
para curar o meu coração
com poesia
e esta triste melodia
de Noel me serviu de inspiração.
Não vou me entregar à inércia,
como na lenda da vitória-régia.
Porque, se não há uma resposta,
eu não vou ficar exposta
à uma tristeza néscia.
Eu vou embora, vou fugir
para Pasárgada, vou pra lá
para curar o meu coração
com poesia
e esta triste melodia
de Noel me serviu de inspiração.
Não sou bamba, nem autoridade. Esse meu samba
não faz sentido pra quem está lendo.
Eu vou só cantar a nostalgia,
que por pura simpatia,
deixa meu peito ardendo.
Eu vou embora, vou fugir
para Pasárgada, vou pra lá
para curar o meu coração
com poesia
e esta triste melodia
de Noel me serviu de inspiração.
Não vou me entregar à inércia,
como na lenda da vitória-régia.
Porque, se não há uma resposta,
eu não vou ficar exposta
à uma tristeza néscia.
Eu vou embora, vou fugir
para Pasárgada, vou pra lá
para curar o meu coração
com poesia
e esta triste melodia
de Noel me serviu de inspiração.
Não sou bamba, nem autoridade. Esse meu samba
é só a homenagem
de quem respeitosamente não
deixou escapar da mão
a vontade de canção.
Deborah O'Lins de Barros
Rio, 21-22/04/2013
sobre o tema de "Feitio de oração", Noel Rosa
(com a voz de Francisco Alves, please)
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poesia
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sábado, 9 de março de 2013
me deixe morrer em seus braços
Não é a
respiração suspensa
o click
o leve sorriso
a lágrima incontrolada
a vontade do toque,
amor por
arte?
E não seria
o conter os dedos
o curvar a alma
o despir-se por dentro
o dialogar com o que se
sente
a satisfação dos olhos,
a nossa mais
sincera entrega?
Então se
pode extrair arte de qualquer coisa.
Qualquer
coisa que me faça querer ser ela.
Qualquer
coisa que me faça querer pedir
por favor
para que me
deixe morrer em seus braços
enquanto
ouço as saborosas palavras
que emanam.
Deborah O'Lins de Barros
na
ensolarada tarde de 15 de fevereiro de 2013.
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poesia
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sábado, 19 de janeiro de 2013
dois pontos, hífen e p maiúsculo
Fui proibida de ler coisas
que não fossem narrativas.
Estava toda prosa
obedecendo a prescrição,
quando de repente
amanheci poesia.
Vai saber.
Pode ser síndrome
ciúme
recaída.
Fumei metade de um livro
e almocei como não almoçaria.
Minha consciência não pesou,
não resisti e não resistiria.
Sou criança pequena
que se leva pela mão
sou fácil, feliz e sadia.
Sou fiel a tudo que amo
e amo tudo
o que melhora meu dia.
O doutor,
lendo e pensando,
ria
"quando essa menina
vai parar de levar
ao pé-da-letra
o que (pr)escrevo
e parar de achar
que trai a prosa,
sendo poesia."
que não fossem narrativas.
Estava toda prosa
obedecendo a prescrição,
quando de repente
amanheci poesia.
Vai saber.
Pode ser síndrome
ciúme
recaída.
Fumei metade de um livro
e almocei como não almoçaria.
Minha consciência não pesou,
não resisti e não resistiria.
Sou criança pequena
que se leva pela mão
sou fácil, feliz e sadia.
Sou fiel a tudo que amo
e amo tudo
o que melhora meu dia.
O doutor,
lendo e pensando,
ria
"quando essa menina
vai parar de levar
ao pé-da-letra
o que (pr)escrevo
e parar de achar
que trai a prosa,
sendo poesia."
Deborah O'Lins de Barros
Rio, 19/01/2013
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poesia
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segunda-feira, 1 de outubro de 2012
tempos interessantes
Houve uma
época em que tive e perdi a oportunidade de encontrar-me com Fausto Wolff,
então cronista do Jornal do Brasil. Meu cronista preferido por algum tempo. Quando
ele faleceu, em 2008, me dei conta que não o fiz saber desse meu carinho e
respeito intelectual. Logo eu, que tenho como estranho hobby procurar e
agradecer pessoalmente as pessoas que de alguma forma me ensinaram a Pensar com
P maiúsculo.
Toda
história é história social. Tinha uns 18, 19 anos ouvi isso pela primeira vez.
E foi lindo. Estudar o que sempre quis, mesmo não tendo concluído o curso, foi
essencial para mim. Meu mundo se abriu e aprendi a ler meu leque de opções.
Uma das
cartas desse baralho era Eric Hobsbawn. Gostava de brincar dizendo que se fosse
40 anos mais jovem, me casaria com ele. Naquele ano ele esteve na FLIP, tive
colegas de turma que foram lá para prestigiá-lo. Eu não fui. Na verdade, nem
liguei muito para a feira de livros, talvez por já conhecer o esquema bagunçado
proposto pela Bienal carioca. Sem saber, perdi minha única oportunidade de
vê-lo pessoalmente.
Hoje Eric
Hobsbawn faleceu. Soube da notícia da forma mais estúpida que poderia: por
aqueles noticiários desinformativos de ônibus. Lembrei do Wolff.
Lembrei dos meus 18, 19 anos. Lembrei que toda história é social. Lembrei que
sou apaixonada por micro-história. E que um dia me formarei nesse curso que
desde a quinta série tinha vontade de estudar. Obrigada, “Hobs”, por nos conscientizar de nossa própria historicidade. Sem dúvida, a historiografia mundial terá tempos menos interessantes.
Deborah
O’Lins de Barros
Rio
de Janeiro, 01/10/2012
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domingo, 16 de setembro de 2012
apetite
O casal come batatas fritas na lanchonete. Fazem aquelas coisas fofas e engraçadas que os casais fazem em público. A moça come enquanto o cara está contando qualquer coisa, quando ele para de narrar de repente.
- Por que parou?
- Ah, a continuação é meio nojenta.
- Nojenta como?
- Tem merda na parada.
- E daí?
- Ah, sei lá, geralmente vocês não gostam de falar disso enquanto comem.
- Só se fosse uma merda muito grande. Até parece que qualquer merda vai me tirar o apetite...
- Sério? Que legal.
A moça sorri docemente e com suas mãos abraça a mão de seu amado.
- É que estou grávida.
O cara engole seco, deixa no prato o palitinho que estava usando para pegar as batatas e guarda um pensamento para si: "caraca, acho que perdi o apetite".
Deborah O'Lins de Barros
Rio de Janeiro, 15/09/2012
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conto
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sexta-feira, 17 de agosto de 2012
O homem, as viagens - Carlos Drummond de Andrade
O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.
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outrem,
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quarta-feira, 6 de junho de 2012
ponte de safena
O homem abria os botões da camisa, obedecendo às ordens da médica que faria seu exame. A cicatriz. Ela não imaginava que havia uma cicatriz ali. Que vida levara aquele homem, que não era qualquer homem, era aquele homem, para que fosse necessária uma ponte de safena? Que tipos de coisas teriam acumulado nas paredes das suas coronárias? Justo aquele homem, que até então fora intocável, intangível e outros ins, o que teria vivido fora dos sonhos insones daquela mulher, que naquele momento só era médica da pele para fora? Ela pensava, com as retinas fixas no ofício e os olhos enraizados no insólito. Com um ciúme absurdo e absorto, se despediu de tudo o que inaconteceu. Aquele homem. Em sua vida imaginária, as pontes que levavam a ele eram mais interessantes.
Deborah O'Lins de Barros
Rio de Janeiro, 05-06/06/2012
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