sexta-feira, 9 de abril de 2010

dança

Ela não tinha um partner. Não gostava de ser parte da nuvem em movimento que era o corpo de baile. Não bastava. Preferia aquela sala vazia de sua casa, onde costumava representar trechos da "Morte do Cisne" e do 2º ato de "Giselle". Sem música. Sem espelhos. Sem público. A dança pelo que representa o que é a dança: a vontade de espalhar todas as moléculas do corpo pelo ambiente.

Se desmanchava toda vez, para se recompor depois. Mas tinha a sensação que sempre ficava faltando um pedaço seu, que na sua imaginação pairava no ar e descia como uma folha, caindo da árvore com a brisa. E o chão daquele quarto, que ninguém mais pisava, era um outono, coberto de folhas dançantes.

Um dia ela se desmanchou, se desfolhou tanto que não levantou mais. Os médicos disseram que ela morreu. Não. Ela virou dança.
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Deborah O'Lins de Barros
Itajaí, 08/04/2010

Um comentário:

Fabrício Santiago disse...

Oi Deborah, que bom que vc apareceu. Sabe como é temos de convidar as pessoas a lerem....rs Pois é, meu blog trata dessas palavras sem nome, palavras que nunca viram a luz, ficam presas na gente, e se a gente morre, elas morrem....não é justo, morrer sem ver o dia. Dai nasceu a Narroterapia, terapia para as palavras........beijões, quero te ver mais lá.