sábado, 19 de janeiro de 2013

dois pontos, hífen e p maiúsculo

Fui proibida de ler coisas
que não fossem narrativas.
Estava toda prosa
obedecendo a prescrição,
quando de repente
amanheci poesia.

Vai saber.
Pode ser síndrome
ciúme
recaída.
Fumei metade de um livro
e almocei como não almoçaria.

Minha consciência não pesou,
não resisti e não resistiria.
Sou criança pequena
que se leva pela mão
sou fácil, feliz e sadia.
Sou fiel a tudo que amo
e amo tudo
o que melhora meu dia.

O doutor,
lendo e pensando,
ria
"quando essa menina
vai parar de levar
ao pé-da-letra
o que (pr)escrevo
e parar de achar
que trai a prosa,
sendo poesia."

Deborah O'Lins de Barros
Rio, 19/01/2013

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

tempos interessantes


Houve uma época em que tive e perdi a oportunidade de encontrar-me com Fausto Wolff, então cronista do Jornal do Brasil. Meu cronista preferido por algum tempo. Quando ele faleceu, em 2008, me dei conta que não o fiz saber desse meu carinho e respeito intelectual. Logo eu, que tenho como estranho hobby procurar e agradecer pessoalmente as pessoas que de alguma forma me ensinaram a Pensar com P maiúsculo.
Toda história é história social. Tinha uns 18, 19 anos ouvi isso pela primeira vez. E foi lindo. Estudar o que sempre quis, mesmo não tendo concluído o curso, foi essencial para mim. Meu mundo se abriu e aprendi a ler meu leque de opções.
Uma das cartas desse baralho era Eric Hobsbawn. Gostava de brincar dizendo que se fosse 40 anos mais jovem, me casaria com ele. Naquele ano ele esteve na FLIP, tive colegas de turma que foram lá para prestigiá-lo. Eu não fui. Na verdade, nem liguei muito para a feira de livros, talvez por já conhecer o esquema bagunçado proposto pela Bienal carioca. Sem saber, perdi minha única oportunidade de vê-lo pessoalmente.
Hoje Eric Hobsbawn faleceu. Soube da notícia da forma mais estúpida que poderia: por aqueles noticiários desinformativos de ônibus. Lembrei do Wolff. Lembrei dos meus 18, 19 anos. Lembrei que toda história é social. Lembrei que sou apaixonada por micro-história. E que um dia me formarei nesse curso que desde a quinta série tinha vontade de estudar. Obrigada, “Hobs”, por nos conscientizar de nossa própria historicidade. Sem dúvida, a historiografia mundial terá tempos menos interessantes.

Deborah O’Lins de Barros
Rio de Janeiro, 01/10/2012

domingo, 16 de setembro de 2012

apetite

     O casal come batatas fritas na lanchonete. Fazem aquelas coisas fofas e engraçadas que os casais fazem em público. A moça come enquanto o cara está contando qualquer coisa, quando ele para de narrar de repente.
- Por que parou?
- Ah, a continuação é meio nojenta.
- Nojenta como?
- Tem merda na parada.
- E daí?
- Ah, sei lá, geralmente vocês não gostam de falar disso enquanto comem.
- Só se fosse uma merda muito grande. Até parece que qualquer merda vai me tirar o apetite...
- Sério? Que legal.
     A moça sorri docemente e com suas mãos abraça a mão de seu amado.
- É que estou grávida.
     O cara engole seco, deixa no prato o palitinho que estava usando para pegar as batatas e guarda um pensamento para si: "caraca, acho que perdi o apetite".


Deborah O'Lins de Barros
Rio de Janeiro, 15/09/2012

sexta-feira, 17 de agosto de 2012

O homem, as viagens - Carlos Drummond de Andrade


O homem, bicho da terra tão pequeno
Chateia-se na terra
Lugar de muita miséria e pouca diversão,
Faz um foguete, uma cápsula, um módulo
Toca para a lua
Desce cauteloso na lua
Pisa na lua
Planta bandeirola na lua
Experimenta a lua
Coloniza a lua
Civiliza a lua
Humaniza a lua.
Lua humanizada: tão igual à terra.
O homem chateia-se na lua.
Vamos para marte - ordena a suas máquinas.
Elas obedecem, o homem desce em marte
Pisa em marte
Experimenta
Coloniza
Civiliza
Humaniza marte com engenho e arte.
Marte humanizado, que lugar quadrado.
Vamos a outra parte?
Claro - diz o engenho
Sofisticado e dócil.
Vamos a vênus.
O homem põe o pé em vênus,
Vê o visto - é isto?
Idem
Idem
Idem.
O homem funde a cuca se não for a júpiter
Proclamar justiça junto com injustiça
Repetir a fossa
Repetir o inquieto
Repetitório.
Outros planetas restam para outras colônias.
O espaço todo vira terra-a-terra.
O homem chega ao sol ou dá uma volta
Só para tever?
Não-vê que ele inventa
Roupa insiderável de viver no sol.
Põe o pé e:
Mas que chato é o sol, falso touro
Espanhol domado.
Restam outros sistemas fora
Do solar a colonizar.
Ao acabarem todos
Só resta ao homem
(estará equipado?)
A dificílima dangerosíssima viagem
De si a si mesmo:
Pôr o pé no chão
Do seu coração
Experimentar
Colonizar
Civilizar
Humanizar
O homem
Descobrindo em suas próprias inexploradas entranhas
A perene, insuspeitada alegria
De con-viver.

quarta-feira, 6 de junho de 2012

ponte de safena


O homem abria os botões da camisa, obedecendo às ordens da médica que faria seu exame. A cicatriz. Ela não imaginava que havia uma cicatriz ali. Que vida levara aquele homem, que não era qualquer homem, era aquele homem, para que fosse necessária uma ponte de safena? Que tipos de coisas teriam acumulado nas paredes das suas coronárias? Justo aquele homem, que até então fora intocável, intangível e outros ins, o que teria vivido fora dos sonhos insones daquela mulher, que naquele momento só era médica da pele para fora? Ela pensava, com as retinas fixas no ofício e os olhos enraizados no insólito. Com um ciúme absurdo e absorto, se despediu de tudo o que inaconteceu. Aquele homem. Em sua vida imaginária, as pontes que levavam a ele eram mais interessantes.

Deborah O'Lins de Barros
Rio de Janeiro, 05-06/06/2012

terça-feira, 10 de abril de 2012

1000AGENS

aqui jazz
aqui vaga uma apaixonada
por uma oratória perfeita.
por um corte móvel.
por uma unidade de movimento.

só me apaixono por coisas belas.
e se existe um prazer
correspondente ao do sexo,
é este.

prazer, meu nome é imagem
meu sobrenome é arte.
e o que sinto por você
tem nome:

chama-se Antropofagia.

Deborah O'Lins de Barros
Rio de Janeiro, 10/04/2012 

terça-feira, 27 de março de 2012

tristeza brega

o que me incomoda
não é o tédio,
não é tudo o que pensam
quando olham para a minha cara chateada,
não é o fato de estar só
no meio de uma multidão.

o que me incomoda
não é o fato de morar
onde eu gostaria de passar férias,
e nem de estar em um lugar de vários amigos
onde nenhum deles são os meus.

não é a tristeza brega
o que me incomoda.
não é esse incômodo
o que me deixa triste.

o que me deixa triste
é a sua ausência
e sua presença
em tudo o que me rodeia.

terça-feira, 6 de março de 2012

romanceiro?

O nobre cavalheiro arrastava suas asas
para a moça que lavava roupa na mão.
Mirava-a no rio, de cócoras, ganhando seu pão.
Decidiu se aproximar, com o peito em brasa...
E recebeu um não.

Mas como pode, com tanto garbo, uma resposta rasa?
É que a moça já tinha um dono para seu coração,
e o nobre cavalheiro torna-se um bufão.
Não admite, bate o pé, respira fundo e amassa
a flor que tinha na mão.

"Posso dar-te o mundo e no entanto arrasas
o que me é mais caro - meu coração.
Venha comigo que te apresento a minha mansão."
E a moça responde, meio sem graça:
"Posso não."

"É que eu amo", disse enquanto olhava para as casas
muito humildes, se comparadas ao casarão.
"E não quero macular esse amor, quero não."
E então, meio que por raiva, veio a desgraça,
desejada do fundo de um coração:

"Que morram todos! Essa raça
de gente simples, cheia de boa intenção,
povo que quando quer, pode e é turrão."
E veio a praga, nascida da pirraça,
veio a seca no sertão.

Deborah O'Lins de Barros
Rio, 06/03/2012

terça-feira, 28 de fevereiro de 2012

15 anos de sociedade epicuréia

Versos livres

Sim, pequei, perdão.
Não consegui, não me adaptei
A essas formas racionais
A essas formas árcades
À razão.

Tenho a suave impressão
De que não passo de mais uma.
Mais uma amada-morte de Poe Poe,
Virgem perdida de Álvares de Azevedo,
Viuvinha de Alencar, Moreninha de Macedo.

Definitivamente, pertenço àquela 2a. geração.
Pequei, Senhor, mas não por que quisesse ter pecado
[O que você faz aqui, Gregório? Está no estilo errado]
Sei que meu inconsciente tem estado danificado
E minha vida vem sendo uma eterna "esparsa ao desconcerto do mundo".

Byron, Byron... seu amor pela Grécia
Deve ser por causa das deusas, sempre inalcançáveis.
E quando me deparo com minhas culpas,
Aparentemente inafiançáveis,
Meu coração se volta para aquela outra península.

E meus versos livres,
Meus versos brancos
Mostram claramente quem é o eu-lírico: eu.
Eu estou livre e tudo está passando em branco,
Junto com esses versos tristes, porém brandos.

Rio, 20/08/2003

Fuga em ré menor

Não há como correr contra o tempo,
Não tenho uma máquina do tempo,
Mas o tempo todo eu tento, tento
Me livrar desse sofrimento... lento.

Fujo para a floresta
(Pois todos têm seu "momento Zaratustra")
Mas mesmo aqui seu nome me persegue
Não faça isso, Sade! Ao menos isso! Custa?

O simbólico Corvo não pousou em um busto,
Mas no inconsciente. Mais precisamente em meu ombro.
E depois que voltei a mim, melhorando do susto,
Senti que ele pairava era em minha mente: assombro!

E por mais que eu tente
Lutar contra o presente, o eterno e o ausente,
Há a frase... é ela, é ela, é ela, é ela
Que deixa essa anti-donzela descontente.

Não posso fugir de mim, não posso, jamais.
E quando, em meu jazigo, eu já não houver mais
Haverá em meu túmulo a frase: Aqui jaz
Alguém que lutou contra o Nunca Mais.

Rio, 10/05/2004

Deborah O'Lins de Barros

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

90 anos. mais moderna que nós.

feliz
aniversário de 90 anos da Semana de Arte Moderna de São Paulo 
para você!

rime terno com chinelo,

poemas e tomates,
o riso e o colorido.
antropofagie tudo isso
e tenha uma boa vida
com arte.



:-)


Deborah O'Lins de Barros
(com Oswald e Tarsila nos olhos)
Rio de Janeiro, 13/02/2012